segunda-feira, 21 de maio de 2012

O americano mais famoso do mundo: Dean Reed, viva o Elvis vermelho!



Ele foi o estadounidense mais famoso do mundo! Pelo menos em metade do planeta... De Berlim Oriental até a Mongólia, milhares o conheciam e o seguiam como fãs. Galã, ator e diretor, cantor e compositor, Dean Reed abandonou sua promissora carreira de cantor folk para lutar pela causa socialista nos mais variados lugares do mundo.

Um verdadeiro internacionalista rockstar, abandonou seu velho Colorado, para viajar pela América Latina, Palestina e  Rússia, entre muitos outros países. Em todos estes lugares, emprestava seus olhos azuis para denunciar o capitalismo e os EUA, e cantar todo tipo de música-política socialista. 

Dean Reed e Salvador Allende em 1970.

 
Yasser Arafat e Dean Reed em 1977.

Dean Reed com Ernesto Cardenal e Daniel Ortega em 1984.

Dean Reed foi amigo do chileno Salvador Allende, de Daniel Ortega da Nicarágua e de Yasser Arafat, da Palestina. Combateu inúmeros regimes militares e diversas guerras, como a do Vietnã. Ele atuou em 20 filmes, gravou 17 discos e se apresentou em 32 países. Reed filmou faroestes na Itália e foi a primeira pessoa dos EUA a fazer uma turnê por toda a União Soviética. Foi também o primeiro estadounidense a cantar no Iraque, em Bangladesh, na Palestina e na Mongólia. Ele cantou músicas country na televisão da Alemanha Oriental e posou para fotógrafos com uma metralhadora na mão defendendo a luta socialista libanesa.

Dean Reed e um AK-47, no Líbano, em 1977.

Sua importância maior reside no fato de ter compreendido o poder que um cantor e ídolo pop possui numa sociedade de massas, para subverter isso e utilizar de modo fortemente político, e a favor da causa dos trabalhadores. Ele resolve essa contradição unindo a canção da indústria cultural às canções políticas, e tenta superar um possível esvaziamento promovido pela indústria, radicalizando cada vez mais seu discurso.

Reed não foi tão famoso nos EUA, mas encontrou uma fama gigantesca nos países da América Latina e do leste europeu, como comprova a pesquisa de audiência de uma revista da época (abaixo), onde ele é mais famoso que Elvis e Ray Charles na década de 60:


O "Americano Rebelde" chegou a ter um programa na TV argentina, mas foi principalmente no Chile que começou a se aproximar dos músicos, intelectuais e líderes de esquerda (como Victor Jara) e ter um contato maior com a miséria e opressão ao povo. A partir disso, utiliza toda sua fama para cantar músicas-políticas, chegando a realizar inúmeros shows de graça em favelas e em prisões. Ele usa, cada vez mais, seu apelo de massa para agredir o staus-quo capitalista. O impacto dessa transformação artística e política é tão forte que ele é preso e expulso da Argentina, após o golpe de 66, e depois também deportado do Chile.

Reed sendo preso pelos Carabinieri, no Chile.

Reed vai assim para o leste europeu, onde já era igualmente famoso, e passa a morar na Alemanha Oriental. Contudo, mesmo vivendo no bloco comunista Reed não se alinha às tendências stalinistas, tanto da União Soviética, quanto da antiga Alemanha, preferindo se definir como um marxista.  Faz inúmeros shows na URSS e apoia diversas causas mundo afora, cantando em inglês, espanhol, italiano, alemão, checo e russo.



Nesse vídeo Reed canta a canção que o levou às paradas de sucesso na América Latina: "Nosso amor de verão".



Em performance exótica, e sem igual, Reed une música clássica, música pop e canção política em uma versão de "Ode à Alegria" de Beethoven.



Nesse vídeo ele canta o clássico anti-fascista italiano "Bella Ciao" na TV russa.

Ao participar do famoso programa "60 minutes" da rede CBS, em 1986, Reed continua sua incansável luta política, e acusa o então presidente Ronald Reagan de ser igual a Stálin.  Não é necessário dizer que a estrela vermelha do rock angariou muitos inimigos, e exatamente um mês depois de se apresentar no programa dos é encontrado morto num lago alemão, impossibilitando os seus planos de então, de realizar uma já agendada turnê de retorno aos Estados Unidos.

A explicação oficial de sua morte é de suicídio, mas muitos acreditam que tenha sido assassinado a mando de alguns dos muitos serviços secretos que atuavam durante a guerra-fria. Uns acreditam que tenha sido a CIA (EUA) ou o Mossad (Israel), ou até mesmo a STASI (Alemanha Oriental) e a KGB (URSS). O fato é que Reed chegou a trabalhar para o STASI durante os anos de 1976 a 1978 e ele sabia utilizar o seu sucesso tanto para lutar contra o capitalismo como contra os desvios burocráticos e ditatorias dos países comunistas.

Na Alemanha, em 1977, Reed filma "El Cantor" sobre a vida de Victor Jara (tema de nosso próximo post), interpretando o próprio. Num dos fatos mais curiosos da música política-americana, quando um grande ícone da música-política interpreta outro grande ícone. Como podemos conferir abaixo, Reed canta alguns clássicos de Jara:



Nesse trecho ele canta a canção satírica: "Ni chicha ni limoná". 



E aqui, Reed interpretando Jara, canta "El hombre es un creador".


Mesmo cantando músicas-políticas, Dean nunca parou de cantar os grandes sucessos de Elvis, Chuck Berry e Beatles, nem abandonou sua origem folk ou renegou os Estados Unidos, mesmo sendo acusado de traídor por esse país.

Reed cantando Beatles.

Ele é sem dúvida um dos maiores representantes da música-política americana, com certeza o mais famoso. E o único que o uniu o título de superstar à luta revolucionária, tentando resolver as contradições de sua carreira em nome do socialismo e de uma sociedade melhor para os explorados do mundo.



Reed cantando o clássico da música-política chilena "Venceremos".


Aqui, ele canta para a TV soviética, com um arranjo oitentista, o clássico sandinista "Soy de un pueblo sencillo".

Quem quiser saber mais sobre essa pessoa incrível, vale a pena acessar o site: www.deanreed.de

Até hoje foram feitos 3 documentários sobre Dean Reed, "American Rebel: The Dean Reed Story" (1985), "Dean Read - Glamour und Protest" (1993) e "Der Rote Elvis (The Red Elvis)" (2007), e algumas biografias, nada disponível no Brasil.



Trailer do filme alemão "The Red Elvis"


Trailer do filme norte-americano "American Rebel: The Dean Reed Story".

Os direitos de filmar a biografia de Dean Reed, foram adquiridos em 2003 pelo ator  Tom Hanks. As últimas notícias dão conta de quem em 2011 iniciou-se a produção do filme. Aguardamos ansiosamente! 

Viva Dean Reed!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Guitarra Armada: irmãos Mejia Godoy

Os irmãos Mejia Godoy, Carlos e Luís Enrique, são dois símbolos da revolução socialista nicaraguense e da música-política das Américas. Sandinistas, cantaram as histórias de seu povo, de seu país e de sua organização política e guerrilheira: a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN).



Músicos virtuosos em múltiplos instrumentos, que vai do violão e do acordeon à marimba, dedicaram sua vida à causa dos trabalhadores, à revolução e à luta anti-imperialista travada contra as forças estadunidenses. Luis Enrique chegou mesmo a trabalhar no Ministério da Cultura da Nicarágua Sandinista, criando a Empresa Nicaraguense de Grabaciones Culturales (ENIGRAC), que produziu mais de 100 discos de canção popular.

Os irmãos compuseram verdadeiros clássicos da música-política americana e álbuns antológicos, como Canto Épico ao FSLN, que contém canções como Octubre e El Nacimiento, sobre a FSLN e a revolução:




Mas o que importa para este Blog, é fazer conhecer uma das mais radiciais manifestações culturais de nossa história, não só em termos de música-política, mas em arte e cultura das Américas. Trata-se do álbum: Guitarra Armada (Violão armado).

Nele, engajados no processo revolucionário, e conscientes do alto-garu de analfabetismo dos combatentes do povo, eles resolvem fazer um disco repleto de "músicas-de-instrução". Seguem as faixas:

01. El Garand (Carlos Mejía Godoy, voz de “Modesto”)
02. Qué es el FAL (Carlos Mejía Godoy, voz de “Javier”)
03. Las municiones (Carlos Mejía Godoy, voz de “Catalina”)
04. Carabina M-1 (Luis Enrique Mejía Godoy)
05. Los explosivos (Carlos Mejía Godoy, voz de “Chomboo”)
06. Memorandum militar 1-79 (Luis Enrique Mejía Godoy)
07. Un tiro 22 (Carlos Mejía Godoy, voz de “Isaías”)
08. El zenzontle pregunta por Arlen (Carlos Mejía Godoy, voz de Doris Tijerino)09. A Gaspar García (Luis Enrique Mejía Godoy)
10. Comandante Carlos Fonseca (Carlos Mejía Godoy, voz de Tomás Borge)11. Himno de la unidad sandinista (Carlos Mejía Godoy)


Nessas músicas, que eram também transmitidas pela Rádio Sandino, o objetivo era ensinar o povo a montar, desmontar e manusear as armas que expropriavam das forças Somosistas e a fazer explosivos caseiros, para a luta nas trincheiras. Na contracapa do disco, encontramos um breve texto de Carlos Mejia Godoy:

“17 – Marzo – 1979
Querido hermano Modesto:
Con lo que me enseñó “Xavier” en el manual y lo que me explicó tu vaqueano, ya tengo armado todo lo concerniente al FAL-SIFICADO, LA CHACHALACA, EL GARAÑÓN y los otros fierros. “Danilo” me mandó al compita matagalpino, experto en explosivos caseros y ya casi estoy terminando este operativo musical, con la ayuda de mi hermano Luis Enrique.
Te mando, pues, un adelantito de nuestra “Guitarra armada”. Como ves, todas estas cancines van en puro estilo “chapiollo”, para que el pueblo agarre bien la movida. Pronto, antes de que venga el CACHIMBEO TOTAL, estas tonaditas van a tronar duro desde nuestra Radio Sandino.
Si encontrás errores, me los señalás por escrito, a través de “Paco” o la “Poeta”.- Adelante, hermano !
Un abrazo rojinegro
Patria libre o morir !!!
Martiniano”


Seguem alguns vídeos das músicas:

Sobre o Fuzil FAL

Sobre os tipos de munição

Sobre a Carabina M-1

Sobre a confecção de explosivos caseiros

Com isso, podemos dizer que os irmãos Mejia Godoy foram muito além da tão famosa discussão entre arte e política. Eles produziram realmente música de intervenção, radicais, úteis, subversivas, que contribuíram na raiz do processo revolucionário popular. 

Além disso, os irmão foram protagonistas de um dos mais memoráveis concertos de música-política da história, o Concerto pela Paz na Centroamérica, em Manágua, em 1983, no momento em que, apesar da capital já estar tomada pelas forças do povo, no norte ainda haviam conflitos contras os mercenários dos EUA. Neste concerto participaram muitos artistas das Américas, incluindo Chico Buarque pelo Brasil (esse concerto vai ser tema de um post específico no futuro).

Por fim, resta dizer que eles ainda produziam e produzem uma série de outros discos. Se destaca também Misa Campesina, que é uma missa católica completa, com Kyrie, canto de entrada, canto de saída, etc, mas de acordo com os preceitos comunistas da Teologia da Libertação.

Vale a pena baixar todos os álbuns que constam no grande site de música-política, Canto Nuevo: http://cantonuevo.perrerac.org/?tag=nicaragua e conhecer toda essa obra importantíssima! 

Espero que fique de exemplo e inspiração para nossos artistas combatentes!