segunda-feira, 25 de junho de 2012

Yolocamba I Ta: Canto à Pátria Revolucionária!

Yolocamba I Ta com Daniel Viglietti no histórico Festival Abril em Manágua, 1983.

A expressão "Yolocamba I Ta" se origina em dois idiomas centro-americanos: o Chorti e a Lenca. E pode significar conceitos distintos que vão de "nostalgia do povo" até "rebelião do plantio". O grupo se formou no final dos anos 70, com os irmãos Franklin e Roberto Quezada, junto a Manuel Gómez e Paulino Espinoza que estudavam no Colégio Jesuíta "Externato Sa José" na capital de El Salvador. Eles são o primeiro grupo deste país de que iremos falar. Que também possui "Los Torogoces de Morazán" e "Cutumay Camones", como representantes da riquíssima música-política deste pequeno e combativo povo da América Central.

Fortemente influenciados pela esquerda católica, pela Teologia da Libertação (talvez a maior "escola" de comunismo da América Latina) e por suas raízes indígenas, os integrantes começam a criar canções-políticas com o intuito de intervir na realidade miserável do povo, ao mesmo tempo em que retomam as práticas culturais mais autóctones de El Salvador.

Como eles mesmo dizem em seu site, "desde sua fundação o grupo optou pela política de conhecer, retomar, difundir e desenvolver a música popular salvadoreña, impulsionando a criação musical comprometida com sua realidade histórico-social, com o desenvolvimento cultural e com a fusão e a mistura harmônica das múltiplas etnias que forma El Salvador e a América Central" (http://yolocambaita.com/).

Essa multiplicidade étnica fez com que o Yolocamba I Ta, formalmente, fosse um caldeirão sonoro, com as mais diversas influências indígenas, negras, católicas e espanholas.

Contudo, sua preocupação era o povo, era lutar pelo socialismo, e não se furta a aderir à guerrilha da Frente Farabundo Martí de Libertacão Nacional (FMLN), na guerra civil que se instalou no país na década de 80. Daí surgem sua verdadeiras obras-primas.

A FMLN foi fundada como um grupo guerrilheiro em 10 de outubro de 1980 a partir da fusão de várias forças políticas de esquerda. Seu nome é uma referência ao líder comunista Farabundo Martí, de 1930.

Augustín Farabundo Martí (1853-1932)

Em março de 1980, há um divisor de águas em El Salvador: o assassinato do arcebispo esquerdista Monsenhor Oscar Romero. Assassinado por um atirador de elite do exército da ditadura de então, enquanto celebrava uma missa em 24 de março, foi a gota d'água, para um país que já sofria com uma série de assassinatos de líderes camponeses, estupros de mulheres e assassinatos de padres.

A partir disso é deflagrada a guerra civil.

Nesse processo o grupo Yolocamba I Ta, assim como os irmãos Mejia Godoy da Nicaragua, gravam uma série de discos que tinham o intuito de intervir radicalmente na situação do país e agitar politicamente o povo, que era em grande parte analfabeto. A canção, já muito utilizada nas missas camponesas pelos padres da Teologia da Libertação, vira arma também para a Revolução.

Com isso, em 1980, cria, na clandestinidade, uma obra antológica para a Música-Política Americana: o K-7 (sim, nessa época, já era a forma mais popular de divulgação): El Salvador: Seu Povo, Sua Luta, Seu Canto. Canções de Combate. Na capa da fita, vinha a foto de um guerrilheiro e a menção: "Feito em algum lugar de El Salvador". E em seu interior continha músicas de convocação à luta, de denúncia e outras em homenagem à Farabundo e Dom Romero, enfim, canções de combate.

Capa e contracapa do K-7

Nas primeira canção, o grupo canta uns dos mais cortantes poemas que repassa a história do povo salvadorenho: "Poema de Amor" de Roque Dalton (este poema foi literalmente "perseguido" pela repressão, sua leitura e difusão era proibida na época):

"Poema de amor"

Já na segunda música, uma convocação às barricadas:

"Barricadas"

Nesse vídeo, é possível ouvir "A Marcha del E.P.L". É interessante notar nessa "marcha" a influência melodiosa de um hino católico:


Em "Miliciano" um elogio aos combatentes. Nessa música é possível ouvir rajadas de metralhadoras, característica de muitas músicas-políticas da América Latina:

"Miliciano"

Por fim,  vale ressaltar ainda deste K-7, que a última gravação é "Poema a Monseñor": música feita pelo Yolocamba I Ta em cima de poema do bispo brasileiro Dom Pedro Casaldáglia em homenagem ao Bispo do povo, Oscar Romero.

Além deste álbum vale destacar algumas canções muito importantes para a luta popular salvadoreña e para a música-política americana, como a belíssima canção "Canto a La Pátria Revolucionária". Nessa música também é possível perceber em sua melodia de início a influência dos hinos católicos, para ir ao decorrer da poesia se contaminando pelas influências indígenas e africanas, para acabar numa apoteose sonora percussiva, rasgada por rajadas de fuzil.

"Canto a La Pátria Revolucionária"

Na linda canção aos companheiros mortos, "Milonga del Fusilado",outras características marcantes da música-política de nosso continente, o canto de lamento e solidariedade aos caídos e o o coro gritando palavras de ordem:

"Milonga Del Fusilado"

Em "Cumbia Centroamericana" um recado direto a Ronald Reagan:

"Cumbia Centroamericana" 

Além dessas canções, Yolocamba I Ta gravou diversas músicas em memória a Oscar Romero.
Aqui, podemos ouvir "Homenaje a Monseñor Romero" também conhecida como "Símbolo de Rebeldía":


Gravou também um álbum inteiro "cristão revolucionário": a "Misa Popular Salvadoreña", com Canto de Entrada, Ofertório, Glória, entre outros, todos repletos de Teologia da Libertação. Aqui podemos ouvir o singelo canto de comunhão, "Corpo y Sangre":

"Cuerpo y Sangre"

Ficamos por aqui com a poesia da belíssima "El Salvador Será" e seus versos esperançosos: "o coração socialista, que vive e se multiplica... pela América Latina e por todos os continentes de terras escravizadas..." é consciente que "em cada punho alçado do povo, há um sorriso... um sorriso de Che, um fuzil de otimismo e um coração de Martí", e combativas canções do Yolocamba I Ta!

domingo, 10 de junho de 2012

Daniel Viglietti: a desalambrar!

Daniel e sua arma.

Daniel Viglietti é sem dúvida um dos maiores músicos das Américas. Em termos formais, é um grande instrumentista, domina o violão erudito e o refinado repertório ibérico. Conhece, também, a fundo a música popular e se inscreve na mais sofisticada poesia sul-americana, ao lado de seu saudoso parceiro, um dos maiores poetas do continente, Mário Benedetti. Contudo, sua produção artística vai mais além, para contribuir de modo inegável com a luta política latino-americana.

Viglietti, em sua vida, é preso e exilado, mas até hoje contribui com as lutas políticas do povo. Seja cantando, escrevendo ou em seu ativo programa de rádio. No Uruguai ou em outros países, Daniel participa de eventos como a Mostra Cultural de Integração dos Povos Latino-americanos, promovida pelo MST em 2008 ou como no Fórum Social Mundial de 2010, ambos em nosso país.

Entretanto, Daniel permanece quase como um desconhecido no Brasil. Mesmo sendo o autor de inúmeras versões de canções de Chico Buarque e Edu Lobo para o espanhol, como "Construcción", "Dios Le Pague" ou "Upa, Negrito". E mesmo sendo autor de músicas até mesmo mais sofisticadas do que estes tão famosos autores brasileiros. 

Ao mesmo tempo em que produzia canções de refinado apuro técnico, ele foi autor de músicas formalmente mais simples, mas de impacto político profundo, como "A Desalambrar", cantada por dezenas de cantores mundo-afora, e que na voz de Victor Jara, se tornou a canção símbolo da Reforma Agrária.

Aqui, Viglietti canta no histórico Concerto "Abril em Managua", em 1983, durante a Revolução Sandinista. 

"A Desalambrar" é precisa como um fuzil: conclama à derrubada dos arames que cercam a propriedade rural e vaticina que a terra é do povo, pois é quem realmente trabalha nela. Perfeita em sua simplicidade, é um exemplo claro de música-discurso e música-política.

Ao contrário dos pares brasileiros, e mesmo com sua sofisticação "erudita", Viglietti sempre atuou de modo muito mais radical em sua vida, o fazendo se aproximar das figuras ícones da Música-Política Americana, como Victor Jara, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Oscar Chavez, os irmãos Mejia, entre outros.

O álbum de 1968, gravado no exílio em Cuba, "Canciones para El Hombre Nuevo", em que consta "A Desalambrar" é um marco na música-política uruguaia e americana. Pois ele ainda contém outras grandes obras, como "Milonga de Andar de Lejos", "Cruz de Luz", "Me Matam Si No Trabajo" (feita em parceria com o grande poeta cubano Nicolas Guillén), e a obra título "Canción del Hombre Nuevo".

Na canção título do álbum, Viglietti, além de fazer uma referência velada a Che Guevara, conclama o surgimento do novo homem, através da luta, armada: "Lo haremos tú y yo/ Nosotros lo haremos/ tomemos la arcilla/ para el hombre nuevo (...) Por brazo, un fuzil/ por luz, la mirada/ y junto a la idea/ una bala asomada (...).".


Em "Milonga de Andar de Lejos" Daniel faz uma belíssima canção de exílio, de modo muito contundente:


"Me Matan Si No Trabajo":


Além de querer intervir na realidade do povo urugauio, como internacionalista, com suas canções, Daniel sempre fez questão de marcar a vida de heróis populares de outros países das Américas, como em "Cruz de Luz", que ilumina a trajetória do padre-guerrilheiro colombiano Camilo Torres, (canção que também ficou famosa na voz de Jara):


Ou à memória do líder nicaraguense Sandino, em "Declaración de Amor a Nicaragua". Aqui, vale a pena prestar atenção para o rebuscado trabalho da "mão direita" no violão erudito, e na participação especial de Mário Benedetti:


Em "Por Todo Chile", Viglietti e Benedetti, em poesia lancinante, fazem testemunho maravilhoso sobre o Chile de Allende:


E, obviamente, à Ernesto Che Guevara:


Uma outra homenagem interessantíssima é a canção "Lamarca" feita em 1972, que saúda o guerrilheiro brasileiro:

Nesse vídeo, Daniel canta no FSM em 2010, no Rio Grande do Sul.

Além dessa obras, é fundamental ressaltar aqui outra obra fundamental de sua carreira, tanto artística quanto historicamente:  "Sólo Digo Compañeros", em que defende claramente a luta armada, e a histórica guerrilha uruguaia dos Tupamaros:


Além dessas músicas revolucionárias, Viglietti criou pequenas obras-primas sobre a vida, que figuram no mais alto grau do cancioneiro popular americano, tamanha a delicadeza das poesias embricadas em um violão cintilante. Como podemos conferir em duas músicas sobre crianças, "Gurisito" ou "Negrita Martina":

"Gurisito"

  "Negrita Martina"

Vale a pena ouvir ainda "Tímpano", seu programa de rádio. Nele Viglietti conta histórias, faz entrevistas, faz análises políticas, fala sobre arte, música e poesia. É possível ouvi-los neste link da rádio uruguaia Espectador:
http://www.espectador.com/1v4_historico.php?idZona=8&sts=1

Para conferir um estudo completo sobre Daniel Viglietti, confira a tese de José de Aguiar, do Depto. De História da UFRGS, sobre o artista uruguaio:
http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/30597/000778805.pdf?sequence=1

E conferir também um concerto histórico: "Viglietti & Benedetti: A Dos Voces", disponível na íntegra no You Tube. Coloco aqui a 1a. parte, que, a partir dela, é possível achar as outras:


Por fim, além dessas canções antológicas, Viglietti escreve "Canción Para Mi America", em que defende a integração da América-Latina, realizada pelos povos oprimidos:

Aqui, Daniel em uma gravação histórica, canta com Izabel e Angel Parra, filhos de Violeta.

E aqui ficamos com os versos dessa linda música, que explicita a essência de toda música-política americana "La guitarra americana, peleando aprendió a cantar!":

Es el tiempo del cobre
Mestizo, grito y fusil
Si no se abren las puertas
El pueblo las ha de abrir
(...)
La copla no tiene dueño
Patrones no más mandar
La guitarra americana
Peleando aprendió a cantar



segunda-feira, 21 de maio de 2012

O americano mais famoso do mundo: Dean Reed, viva o Elvis vermelho!



Ele foi o estadounidense mais famoso do mundo! Pelo menos em metade do planeta... De Berlim Oriental até a Mongólia, milhares o conheciam e o seguiam como fãs. Galã, ator e diretor, cantor e compositor, Dean Reed abandonou sua promissora carreira de cantor folk para lutar pela causa socialista nos mais variados lugares do mundo.

Um verdadeiro internacionalista rockstar, abandonou seu velho Colorado, para viajar pela América Latina, Palestina e  Rússia, entre muitos outros países. Em todos estes lugares, emprestava seus olhos azuis para denunciar o capitalismo e os EUA, e cantar todo tipo de música-política socialista. 

Dean Reed e Salvador Allende em 1970.

 
Yasser Arafat e Dean Reed em 1977.

Dean Reed com Ernesto Cardenal e Daniel Ortega em 1984.

Dean Reed foi amigo do chileno Salvador Allende, de Daniel Ortega da Nicarágua e de Yasser Arafat, da Palestina. Combateu inúmeros regimes militares e diversas guerras, como a do Vietnã. Ele atuou em 20 filmes, gravou 17 discos e se apresentou em 32 países. Reed filmou faroestes na Itália e foi a primeira pessoa dos EUA a fazer uma turnê por toda a União Soviética. Foi também o primeiro estadounidense a cantar no Iraque, em Bangladesh, na Palestina e na Mongólia. Ele cantou músicas country na televisão da Alemanha Oriental e posou para fotógrafos com uma metralhadora na mão defendendo a luta socialista libanesa.

Dean Reed e um AK-47, no Líbano, em 1977.

Sua importância maior reside no fato de ter compreendido o poder que um cantor e ídolo pop possui numa sociedade de massas, para subverter isso e utilizar de modo fortemente político, e a favor da causa dos trabalhadores. Ele resolve essa contradição unindo a canção da indústria cultural às canções políticas, e tenta superar um possível esvaziamento promovido pela indústria, radicalizando cada vez mais seu discurso.

Reed não foi tão famoso nos EUA, mas encontrou uma fama gigantesca nos países da América Latina e do leste europeu, como comprova a pesquisa de audiência de uma revista da época (abaixo), onde ele é mais famoso que Elvis e Ray Charles na década de 60:


O "Americano Rebelde" chegou a ter um programa na TV argentina, mas foi principalmente no Chile que começou a se aproximar dos músicos, intelectuais e líderes de esquerda (como Victor Jara) e ter um contato maior com a miséria e opressão ao povo. A partir disso, utiliza toda sua fama para cantar músicas-políticas, chegando a realizar inúmeros shows de graça em favelas e em prisões. Ele usa, cada vez mais, seu apelo de massa para agredir o staus-quo capitalista. O impacto dessa transformação artística e política é tão forte que ele é preso e expulso da Argentina, após o golpe de 66, e depois também deportado do Chile.

Reed sendo preso pelos Carabinieri, no Chile.

Reed vai assim para o leste europeu, onde já era igualmente famoso, e passa a morar na Alemanha Oriental. Contudo, mesmo vivendo no bloco comunista Reed não se alinha às tendências stalinistas, tanto da União Soviética, quanto da antiga Alemanha, preferindo se definir como um marxista.  Faz inúmeros shows na URSS e apoia diversas causas mundo afora, cantando em inglês, espanhol, italiano, alemão, checo e russo.



Nesse vídeo Reed canta a canção que o levou às paradas de sucesso na América Latina: "Nosso amor de verão".



Em performance exótica, e sem igual, Reed une música clássica, música pop e canção política em uma versão de "Ode à Alegria" de Beethoven.



Nesse vídeo ele canta o clássico anti-fascista italiano "Bella Ciao" na TV russa.

Ao participar do famoso programa "60 minutes" da rede CBS, em 1986, Reed continua sua incansável luta política, e acusa o então presidente Ronald Reagan de ser igual a Stálin.  Não é necessário dizer que a estrela vermelha do rock angariou muitos inimigos, e exatamente um mês depois de se apresentar no programa dos é encontrado morto num lago alemão, impossibilitando os seus planos de então, de realizar uma já agendada turnê de retorno aos Estados Unidos.

A explicação oficial de sua morte é de suicídio, mas muitos acreditam que tenha sido assassinado a mando de alguns dos muitos serviços secretos que atuavam durante a guerra-fria. Uns acreditam que tenha sido a CIA (EUA) ou o Mossad (Israel), ou até mesmo a STASI (Alemanha Oriental) e a KGB (URSS). O fato é que Reed chegou a trabalhar para o STASI durante os anos de 1976 a 1978 e ele sabia utilizar o seu sucesso tanto para lutar contra o capitalismo como contra os desvios burocráticos e ditatorias dos países comunistas.

Na Alemanha, em 1977, Reed filma "El Cantor" sobre a vida de Victor Jara (tema de nosso próximo post), interpretando o próprio. Num dos fatos mais curiosos da música política-americana, quando um grande ícone da música-política interpreta outro grande ícone. Como podemos conferir abaixo, Reed canta alguns clássicos de Jara:



Nesse trecho ele canta a canção satírica: "Ni chicha ni limoná". 



E aqui, Reed interpretando Jara, canta "El hombre es un creador".


Mesmo cantando músicas-políticas, Dean nunca parou de cantar os grandes sucessos de Elvis, Chuck Berry e Beatles, nem abandonou sua origem folk ou renegou os Estados Unidos, mesmo sendo acusado de traídor por esse país.

Reed cantando Beatles.

Ele é sem dúvida um dos maiores representantes da música-política americana, com certeza o mais famoso. E o único que o uniu o título de superstar à luta revolucionária, tentando resolver as contradições de sua carreira em nome do socialismo e de uma sociedade melhor para os explorados do mundo.



Reed cantando o clássico da música-política chilena "Venceremos".


Aqui, ele canta para a TV soviética, com um arranjo oitentista, o clássico sandinista "Soy de un pueblo sencillo".

Quem quiser saber mais sobre essa pessoa incrível, vale a pena acessar o site: www.deanreed.de

Até hoje foram feitos 3 documentários sobre Dean Reed, "American Rebel: The Dean Reed Story" (1985), "Dean Read - Glamour und Protest" (1993) e "Der Rote Elvis (The Red Elvis)" (2007), e algumas biografias, nada disponível no Brasil.



Trailer do filme alemão "The Red Elvis"


Trailer do filme norte-americano "American Rebel: The Dean Reed Story".

Os direitos de filmar a biografia de Dean Reed, foram adquiridos em 2003 pelo ator  Tom Hanks. As últimas notícias dão conta de quem em 2011 iniciou-se a produção do filme. Aguardamos ansiosamente! 

Viva Dean Reed!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Guitarra Armada: irmãos Mejia Godoy

Os irmãos Mejia Godoy, Carlos e Luís Enrique, são dois símbolos da revolução socialista nicaraguense e da música-política das Américas. Sandinistas, cantaram as histórias de seu povo, de seu país e de sua organização política e guerrilheira: a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN).



Músicos virtuosos em múltiplos instrumentos, que vai do violão e do acordeon à marimba, dedicaram sua vida à causa dos trabalhadores, à revolução e à luta anti-imperialista travada contra as forças estadunidenses. Luis Enrique chegou mesmo a trabalhar no Ministério da Cultura da Nicarágua Sandinista, criando a Empresa Nicaraguense de Grabaciones Culturales (ENIGRAC), que produziu mais de 100 discos de canção popular.

Os irmãos compuseram verdadeiros clássicos da música-política americana e álbuns antológicos, como Canto Épico ao FSLN, que contém canções como Octubre e El Nacimiento, sobre a FSLN e a revolução:




Mas o que importa para este Blog, é fazer conhecer uma das mais radiciais manifestações culturais de nossa história, não só em termos de música-política, mas em arte e cultura das Américas. Trata-se do álbum: Guitarra Armada (Violão armado).

Nele, engajados no processo revolucionário, e conscientes do alto-garu de analfabetismo dos combatentes do povo, eles resolvem fazer um disco repleto de "músicas-de-instrução". Seguem as faixas:

01. El Garand (Carlos Mejía Godoy, voz de “Modesto”)
02. Qué es el FAL (Carlos Mejía Godoy, voz de “Javier”)
03. Las municiones (Carlos Mejía Godoy, voz de “Catalina”)
04. Carabina M-1 (Luis Enrique Mejía Godoy)
05. Los explosivos (Carlos Mejía Godoy, voz de “Chomboo”)
06. Memorandum militar 1-79 (Luis Enrique Mejía Godoy)
07. Un tiro 22 (Carlos Mejía Godoy, voz de “Isaías”)
08. El zenzontle pregunta por Arlen (Carlos Mejía Godoy, voz de Doris Tijerino)09. A Gaspar García (Luis Enrique Mejía Godoy)
10. Comandante Carlos Fonseca (Carlos Mejía Godoy, voz de Tomás Borge)11. Himno de la unidad sandinista (Carlos Mejía Godoy)


Nessas músicas, que eram também transmitidas pela Rádio Sandino, o objetivo era ensinar o povo a montar, desmontar e manusear as armas que expropriavam das forças Somosistas e a fazer explosivos caseiros, para a luta nas trincheiras. Na contracapa do disco, encontramos um breve texto de Carlos Mejia Godoy:

“17 – Marzo – 1979
Querido hermano Modesto:
Con lo que me enseñó “Xavier” en el manual y lo que me explicó tu vaqueano, ya tengo armado todo lo concerniente al FAL-SIFICADO, LA CHACHALACA, EL GARAÑÓN y los otros fierros. “Danilo” me mandó al compita matagalpino, experto en explosivos caseros y ya casi estoy terminando este operativo musical, con la ayuda de mi hermano Luis Enrique.
Te mando, pues, un adelantito de nuestra “Guitarra armada”. Como ves, todas estas cancines van en puro estilo “chapiollo”, para que el pueblo agarre bien la movida. Pronto, antes de que venga el CACHIMBEO TOTAL, estas tonaditas van a tronar duro desde nuestra Radio Sandino.
Si encontrás errores, me los señalás por escrito, a través de “Paco” o la “Poeta”.- Adelante, hermano !
Un abrazo rojinegro
Patria libre o morir !!!
Martiniano”


Seguem alguns vídeos das músicas:

Sobre o Fuzil FAL

Sobre os tipos de munição

Sobre a Carabina M-1

Sobre a confecção de explosivos caseiros

Com isso, podemos dizer que os irmãos Mejia Godoy foram muito além da tão famosa discussão entre arte e política. Eles produziram realmente música de intervenção, radicais, úteis, subversivas, que contribuíram na raiz do processo revolucionário popular. 

Além disso, os irmão foram protagonistas de um dos mais memoráveis concertos de música-política da história, o Concerto pela Paz na Centroamérica, em Manágua, em 1983, no momento em que, apesar da capital já estar tomada pelas forças do povo, no norte ainda haviam conflitos contras os mercenários dos EUA. Neste concerto participaram muitos artistas das Américas, incluindo Chico Buarque pelo Brasil (esse concerto vai ser tema de um post específico no futuro).

Por fim, resta dizer que eles ainda produziam e produzem uma série de outros discos. Se destaca também Misa Campesina, que é uma missa católica completa, com Kyrie, canto de entrada, canto de saída, etc, mas de acordo com os preceitos comunistas da Teologia da Libertação.

Vale a pena baixar todos os álbuns que constam no grande site de música-política, Canto Nuevo: http://cantonuevo.perrerac.org/?tag=nicaragua e conhecer toda essa obra importantíssima! 

Espero que fique de exemplo e inspiração para nossos artistas combatentes!

domingo, 11 de março de 2012

Violeta Parra, a maior de todas...

Com sua filha Carmem Luisa, em Genebra. 1963

A chilena Violeta Parra (1917 - 1967) foi, sem dúvida, a maior artista das Américas. Cantora e compositora, poeta, ceramista, tecelã, pintora, pesquisadora, a militante comunista compôs duas das maiores obras-primas da humanidade, as canções Gracias a La Vida e Volver a Los 17.

Artista desde criança, cantou em todos os cantos do Chile, pesquisando e apresentando a cultura dos povos pobres de seu país: seu modo de ver o mundo, suas tristezas, suas alegrias e seus sonhos. Chegou a dar aulas em universidades chilenas sobre cultura popular e participou ativamente da luta política do povo, junto a Pablo Neruda, Patrício Manns, Rolando Alarcón, Victor Jara e muitos outros. Compôs inúmeras músicas que discutiam ativamente a situação das pessoas oprimidas e que lutavam por transformações radiciais em seu país.

Antes de falarmos sobre suas músicas, veja abaixo uma tapeçaria de sua autoria, e uma entrevista em que comenta algumas de suas obras visuais:

La Cantante Calva. 1960. 138 x 173 cm. Juta bordada com lanigrafia. Fundación Violeta Parra.



Mas foi com a música que fez suas obras mais afiadas. Uma de suas canções mais famosas, Volver a Los 17 foi gravada por inúmeros intérpretes mundo afora, entoando versos sobre a juventude e o amor. Segue abaixo uma versão da própria Violeta e uma cantada por Mercedes Sosa, Chico Buarque, Milton Nascimento, Caetano Veloso e Gal Costa.




Da mesma forma, Gracias a La Vida, se tornou um ícone da música latino-americana, cantada e traduzida para as mais variadas línguas, é a canção maior de agradecimento humilde a vida. Abaixo, com a própria Violeta e com Elis Regina.



Dessa seleção que estamos fazendo, depois das duas grandes obras-primas, vale ressaltar alguns exemplos de suas músicas de denúncia, como Rin de Angelito, sobre a morte prematura de uma criança, ou ainda El Pueblo (ou Paseaba el Pueblo Sus banderas Rojas) com poesia de Pablo Neruda, sobre as lutas socialistas do povo: 




Ou ainda Por Que los Pobres No Tienem, falando sobre a pobreza e seus inimigos, os donos de terra, a igreja e o capital. Ouça abaixo em versão de sua filha, Isabel Parra:


Podemos ainda encontrar canções como Que Dirá El Santo Padre, em que ataca a Igreja, tradicional reduto conservador e de apoio às elites, e onde também homenageia o líder comunista Julián Grimau, assassinado pela ditadura fascista espanhola:


E por fim, um exemplo clássico de música política, feita não só para a denúncia, mas para a intervenção política e popular: La Carta. Violeta recebe uma carta onde informa que um de seus irmãos havia sido preso por apoiar uma greve, pela polícia política de então. Na música, Parra dá sua resposta atacando as elites e reafirmando que além deste irmão, ela teria outros nove, todos comunistas, e que todos seguiriam lutando. Aqui não há mais a concepção burguesa de arte, como produto autônomo de um autor especializado, que objetiva sensibilizar ou gerar reflexão em seu público. Mas uma lutadora, que encontra no trabalho de cantora e musicista, uma possibilidade de intervir em sua realidade:



Esses são alguns poucos exemplos de mais de 500 músicas que Violeta compôs, é possível ler todas as letras e títulos no inestimável Portal Cancioneros.com:  www.cancioneros.com/ca/4/0/cancionero-de-violeta-parra 


Vale, ainda, conferir sua biografia completa, suas obras e fotografias, no site de La Fundación Violeta Parra, fundada por seus filhos: http://www.violetaparra.scd.cl/.

Ou, por fim, assistir ao filme Violeta Se Fué a Los Cielos, de Andrés Wood, feito em 2011, que tenta contar a história dessa grande mulher (mas que no entanto foi muito criticado por Tita Parra, neta de Violeta):



Como diria Neruda: Gracias por tu luz, Violeta Parra!