Yolocamba I Ta com Daniel Viglietti no histórico Festival Abril em Manágua, 1983.
A expressão "Yolocamba I Ta" se origina em dois idiomas centro-americanos: o Chorti e a Lenca. E pode significar conceitos distintos que vão de "nostalgia do povo" até "rebelião do plantio". O grupo se formou no final dos anos 70, com os irmãos Franklin e Roberto Quezada, junto a Manuel Gómez e Paulino Espinoza que estudavam no Colégio Jesuíta "Externato Sa José" na capital de El Salvador. Eles são o primeiro grupo deste país de que iremos falar. Que também possui "Los Torogoces de Morazán" e "Cutumay Camones", como representantes da riquíssima música-política deste pequeno e combativo povo da América Central.
Fortemente influenciados pela esquerda católica, pela Teologia da Libertação (talvez a maior "escola" de comunismo da América Latina) e por suas raízes indígenas, os integrantes começam a criar canções-políticas com o intuito de intervir na realidade miserável do povo, ao mesmo tempo em que retomam as práticas culturais mais autóctones de El Salvador.
Como eles mesmo dizem em seu site, "desde sua fundação o grupo optou pela política de conhecer, retomar, difundir e desenvolver a música popular salvadoreña, impulsionando a criação musical comprometida com sua realidade histórico-social, com o desenvolvimento cultural e com a fusão e a mistura harmônica das múltiplas etnias que forma El Salvador e a América Central" (http://yolocambaita.com/).
Essa multiplicidade étnica fez com que o Yolocamba I Ta, formalmente, fosse um caldeirão sonoro, com as mais diversas influências indígenas, negras, católicas e espanholas.
Contudo, sua preocupação era o povo, era lutar pelo socialismo, e não se furta a aderir à guerrilha da Frente Farabundo Martí de Libertacão Nacional (FMLN), na guerra civil que se instalou no país na década de 80. Daí surgem sua verdadeiras obras-primas.
A FMLN foi fundada como um grupo guerrilheiro em 10 de outubro de 1980 a partir da fusão de várias forças políticas de esquerda. Seu nome é uma referência ao líder comunista Farabundo Martí, de 1930.
Augustín Farabundo Martí (1853-1932)
Em março de 1980, há um divisor de águas em El Salvador: o assassinato do arcebispo esquerdista Monsenhor Oscar Romero. Assassinado por um atirador de elite do exército da ditadura de então, enquanto celebrava uma missa em 24 de março, foi a gota d'água, para um país que já sofria com uma série de assassinatos de líderes camponeses, estupros de mulheres e assassinatos de padres.
A partir disso é deflagrada a guerra civil.
Nesse processo o grupo Yolocamba I Ta, assim como os irmãos Mejia Godoy da Nicaragua, gravam uma série de discos que tinham o intuito de intervir radicalmente na situação do país e agitar politicamente o povo, que era em grande parte analfabeto. A canção, já muito utilizada nas missas camponesas pelos padres da Teologia da Libertação, vira arma também para a Revolução.
Com isso, em 1980, cria, na clandestinidade, uma obra antológica para a Música-Política Americana: o K-7 (sim, nessa época, já era a forma mais popular de divulgação): El Salvador: Seu Povo, Sua Luta, Seu Canto. Canções de Combate. Na capa da fita, vinha a foto de um guerrilheiro e a menção: "Feito em algum lugar de El Salvador". E em seu interior continha músicas de convocação à luta, de denúncia e outras em homenagem à Farabundo e Dom Romero, enfim, canções de combate.
Capa e contracapa do K-7
Nas primeira canção, o grupo canta uns dos mais cortantes poemas que repassa a história do povo salvadorenho: "Poema de Amor" de Roque Dalton (este poema foi literalmente "perseguido" pela repressão, sua leitura e difusão era proibida na época):
"Poema de amor"
Já na segunda música, uma convocação às barricadas:
"Barricadas"
Nesse vídeo, é possível ouvir "A Marcha del E.P.L". É interessante notar nessa "marcha" a influência melodiosa de um hino católico:Em "Miliciano" um elogio aos combatentes. Nessa música é possível ouvir rajadas de metralhadoras, característica de muitas músicas-políticas da América Latina:
"Miliciano"
Por fim, vale ressaltar ainda deste K-7, que a última gravação é "Poema a Monseñor": música feita pelo Yolocamba I Ta em cima de poema do bispo brasileiro Dom Pedro Casaldáglia em homenagem ao Bispo do povo, Oscar Romero.
Além deste álbum vale destacar algumas canções muito importantes para a luta popular salvadoreña e para a música-política americana, como a belíssima canção "Canto a La Pátria Revolucionária". Nessa música também é possível perceber em sua melodia de início a influência dos hinos católicos, para ir ao decorrer da poesia se contaminando pelas influências indígenas e africanas, para acabar numa apoteose sonora percussiva, rasgada por rajadas de fuzil.
"Canto a La Pátria Revolucionária"
Na linda canção aos companheiros mortos, "Milonga del Fusilado",outras características marcantes da música-política de nosso continente, o canto de lamento e solidariedade aos caídos e o o coro gritando palavras de ordem:
"Milonga Del Fusilado"
Em "Cumbia Centroamericana" um recado direto a Ronald Reagan:
"Cumbia Centroamericana"
Aqui, podemos ouvir "Homenaje a Monseñor Romero" também conhecida como "Símbolo de Rebeldía":
Gravou também um álbum inteiro "cristão revolucionário": a "Misa Popular Salvadoreña", com Canto de Entrada, Ofertório, Glória, entre outros, todos repletos de Teologia da Libertação. Aqui podemos ouvir o singelo canto de comunhão, "Corpo y Sangre":
"Cuerpo y Sangre"
Ficamos por aqui com a poesia da belíssima "El Salvador Será" e seus versos esperançosos: "o coração socialista, que vive e se multiplica... pela América Latina e por todos os continentes de terras escravizadas..." é consciente que "em cada punho alçado do povo, há um sorriso... um sorriso de Che, um fuzil de otimismo e um coração de Martí", e combativas canções do Yolocamba I Ta!



