segunda-feira, 25 de junho de 2012

Yolocamba I Ta: Canto à Pátria Revolucionária!

Yolocamba I Ta com Daniel Viglietti no histórico Festival Abril em Manágua, 1983.

A expressão "Yolocamba I Ta" se origina em dois idiomas centro-americanos: o Chorti e a Lenca. E pode significar conceitos distintos que vão de "nostalgia do povo" até "rebelião do plantio". O grupo se formou no final dos anos 70, com os irmãos Franklin e Roberto Quezada, junto a Manuel Gómez e Paulino Espinoza que estudavam no Colégio Jesuíta "Externato Sa José" na capital de El Salvador. Eles são o primeiro grupo deste país de que iremos falar. Que também possui "Los Torogoces de Morazán" e "Cutumay Camones", como representantes da riquíssima música-política deste pequeno e combativo povo da América Central.

Fortemente influenciados pela esquerda católica, pela Teologia da Libertação (talvez a maior "escola" de comunismo da América Latina) e por suas raízes indígenas, os integrantes começam a criar canções-políticas com o intuito de intervir na realidade miserável do povo, ao mesmo tempo em que retomam as práticas culturais mais autóctones de El Salvador.

Como eles mesmo dizem em seu site, "desde sua fundação o grupo optou pela política de conhecer, retomar, difundir e desenvolver a música popular salvadoreña, impulsionando a criação musical comprometida com sua realidade histórico-social, com o desenvolvimento cultural e com a fusão e a mistura harmônica das múltiplas etnias que forma El Salvador e a América Central" (http://yolocambaita.com/).

Essa multiplicidade étnica fez com que o Yolocamba I Ta, formalmente, fosse um caldeirão sonoro, com as mais diversas influências indígenas, negras, católicas e espanholas.

Contudo, sua preocupação era o povo, era lutar pelo socialismo, e não se furta a aderir à guerrilha da Frente Farabundo Martí de Libertacão Nacional (FMLN), na guerra civil que se instalou no país na década de 80. Daí surgem sua verdadeiras obras-primas.

A FMLN foi fundada como um grupo guerrilheiro em 10 de outubro de 1980 a partir da fusão de várias forças políticas de esquerda. Seu nome é uma referência ao líder comunista Farabundo Martí, de 1930.

Augustín Farabundo Martí (1853-1932)

Em março de 1980, há um divisor de águas em El Salvador: o assassinato do arcebispo esquerdista Monsenhor Oscar Romero. Assassinado por um atirador de elite do exército da ditadura de então, enquanto celebrava uma missa em 24 de março, foi a gota d'água, para um país que já sofria com uma série de assassinatos de líderes camponeses, estupros de mulheres e assassinatos de padres.

A partir disso é deflagrada a guerra civil.

Nesse processo o grupo Yolocamba I Ta, assim como os irmãos Mejia Godoy da Nicaragua, gravam uma série de discos que tinham o intuito de intervir radicalmente na situação do país e agitar politicamente o povo, que era em grande parte analfabeto. A canção, já muito utilizada nas missas camponesas pelos padres da Teologia da Libertação, vira arma também para a Revolução.

Com isso, em 1980, cria, na clandestinidade, uma obra antológica para a Música-Política Americana: o K-7 (sim, nessa época, já era a forma mais popular de divulgação): El Salvador: Seu Povo, Sua Luta, Seu Canto. Canções de Combate. Na capa da fita, vinha a foto de um guerrilheiro e a menção: "Feito em algum lugar de El Salvador". E em seu interior continha músicas de convocação à luta, de denúncia e outras em homenagem à Farabundo e Dom Romero, enfim, canções de combate.

Capa e contracapa do K-7

Nas primeira canção, o grupo canta uns dos mais cortantes poemas que repassa a história do povo salvadorenho: "Poema de Amor" de Roque Dalton (este poema foi literalmente "perseguido" pela repressão, sua leitura e difusão era proibida na época):

"Poema de amor"

Já na segunda música, uma convocação às barricadas:

"Barricadas"

Nesse vídeo, é possível ouvir "A Marcha del E.P.L". É interessante notar nessa "marcha" a influência melodiosa de um hino católico:


Em "Miliciano" um elogio aos combatentes. Nessa música é possível ouvir rajadas de metralhadoras, característica de muitas músicas-políticas da América Latina:

"Miliciano"

Por fim,  vale ressaltar ainda deste K-7, que a última gravação é "Poema a Monseñor": música feita pelo Yolocamba I Ta em cima de poema do bispo brasileiro Dom Pedro Casaldáglia em homenagem ao Bispo do povo, Oscar Romero.

Além deste álbum vale destacar algumas canções muito importantes para a luta popular salvadoreña e para a música-política americana, como a belíssima canção "Canto a La Pátria Revolucionária". Nessa música também é possível perceber em sua melodia de início a influência dos hinos católicos, para ir ao decorrer da poesia se contaminando pelas influências indígenas e africanas, para acabar numa apoteose sonora percussiva, rasgada por rajadas de fuzil.

"Canto a La Pátria Revolucionária"

Na linda canção aos companheiros mortos, "Milonga del Fusilado",outras características marcantes da música-política de nosso continente, o canto de lamento e solidariedade aos caídos e o o coro gritando palavras de ordem:

"Milonga Del Fusilado"

Em "Cumbia Centroamericana" um recado direto a Ronald Reagan:

"Cumbia Centroamericana" 

Além dessas canções, Yolocamba I Ta gravou diversas músicas em memória a Oscar Romero.
Aqui, podemos ouvir "Homenaje a Monseñor Romero" também conhecida como "Símbolo de Rebeldía":


Gravou também um álbum inteiro "cristão revolucionário": a "Misa Popular Salvadoreña", com Canto de Entrada, Ofertório, Glória, entre outros, todos repletos de Teologia da Libertação. Aqui podemos ouvir o singelo canto de comunhão, "Corpo y Sangre":

"Cuerpo y Sangre"

Ficamos por aqui com a poesia da belíssima "El Salvador Será" e seus versos esperançosos: "o coração socialista, que vive e se multiplica... pela América Latina e por todos os continentes de terras escravizadas..." é consciente que "em cada punho alçado do povo, há um sorriso... um sorriso de Che, um fuzil de otimismo e um coração de Martí", e combativas canções do Yolocamba I Ta!

domingo, 10 de junho de 2012

Daniel Viglietti: a desalambrar!

Daniel e sua arma.

Daniel Viglietti é sem dúvida um dos maiores músicos das Américas. Em termos formais, é um grande instrumentista, domina o violão erudito e o refinado repertório ibérico. Conhece, também, a fundo a música popular e se inscreve na mais sofisticada poesia sul-americana, ao lado de seu saudoso parceiro, um dos maiores poetas do continente, Mário Benedetti. Contudo, sua produção artística vai mais além, para contribuir de modo inegável com a luta política latino-americana.

Viglietti, em sua vida, é preso e exilado, mas até hoje contribui com as lutas políticas do povo. Seja cantando, escrevendo ou em seu ativo programa de rádio. No Uruguai ou em outros países, Daniel participa de eventos como a Mostra Cultural de Integração dos Povos Latino-americanos, promovida pelo MST em 2008 ou como no Fórum Social Mundial de 2010, ambos em nosso país.

Entretanto, Daniel permanece quase como um desconhecido no Brasil. Mesmo sendo o autor de inúmeras versões de canções de Chico Buarque e Edu Lobo para o espanhol, como "Construcción", "Dios Le Pague" ou "Upa, Negrito". E mesmo sendo autor de músicas até mesmo mais sofisticadas do que estes tão famosos autores brasileiros. 

Ao mesmo tempo em que produzia canções de refinado apuro técnico, ele foi autor de músicas formalmente mais simples, mas de impacto político profundo, como "A Desalambrar", cantada por dezenas de cantores mundo-afora, e que na voz de Victor Jara, se tornou a canção símbolo da Reforma Agrária.

Aqui, Viglietti canta no histórico Concerto "Abril em Managua", em 1983, durante a Revolução Sandinista. 

"A Desalambrar" é precisa como um fuzil: conclama à derrubada dos arames que cercam a propriedade rural e vaticina que a terra é do povo, pois é quem realmente trabalha nela. Perfeita em sua simplicidade, é um exemplo claro de música-discurso e música-política.

Ao contrário dos pares brasileiros, e mesmo com sua sofisticação "erudita", Viglietti sempre atuou de modo muito mais radical em sua vida, o fazendo se aproximar das figuras ícones da Música-Política Americana, como Victor Jara, Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, Oscar Chavez, os irmãos Mejia, entre outros.

O álbum de 1968, gravado no exílio em Cuba, "Canciones para El Hombre Nuevo", em que consta "A Desalambrar" é um marco na música-política uruguaia e americana. Pois ele ainda contém outras grandes obras, como "Milonga de Andar de Lejos", "Cruz de Luz", "Me Matam Si No Trabajo" (feita em parceria com o grande poeta cubano Nicolas Guillén), e a obra título "Canción del Hombre Nuevo".

Na canção título do álbum, Viglietti, além de fazer uma referência velada a Che Guevara, conclama o surgimento do novo homem, através da luta, armada: "Lo haremos tú y yo/ Nosotros lo haremos/ tomemos la arcilla/ para el hombre nuevo (...) Por brazo, un fuzil/ por luz, la mirada/ y junto a la idea/ una bala asomada (...).".


Em "Milonga de Andar de Lejos" Daniel faz uma belíssima canção de exílio, de modo muito contundente:


"Me Matan Si No Trabajo":


Além de querer intervir na realidade do povo urugauio, como internacionalista, com suas canções, Daniel sempre fez questão de marcar a vida de heróis populares de outros países das Américas, como em "Cruz de Luz", que ilumina a trajetória do padre-guerrilheiro colombiano Camilo Torres, (canção que também ficou famosa na voz de Jara):


Ou à memória do líder nicaraguense Sandino, em "Declaración de Amor a Nicaragua". Aqui, vale a pena prestar atenção para o rebuscado trabalho da "mão direita" no violão erudito, e na participação especial de Mário Benedetti:


Em "Por Todo Chile", Viglietti e Benedetti, em poesia lancinante, fazem testemunho maravilhoso sobre o Chile de Allende:


E, obviamente, à Ernesto Che Guevara:


Uma outra homenagem interessantíssima é a canção "Lamarca" feita em 1972, que saúda o guerrilheiro brasileiro:

Nesse vídeo, Daniel canta no FSM em 2010, no Rio Grande do Sul.

Além dessa obras, é fundamental ressaltar aqui outra obra fundamental de sua carreira, tanto artística quanto historicamente:  "Sólo Digo Compañeros", em que defende claramente a luta armada, e a histórica guerrilha uruguaia dos Tupamaros:


Além dessas músicas revolucionárias, Viglietti criou pequenas obras-primas sobre a vida, que figuram no mais alto grau do cancioneiro popular americano, tamanha a delicadeza das poesias embricadas em um violão cintilante. Como podemos conferir em duas músicas sobre crianças, "Gurisito" ou "Negrita Martina":

"Gurisito"

  "Negrita Martina"

Vale a pena ouvir ainda "Tímpano", seu programa de rádio. Nele Viglietti conta histórias, faz entrevistas, faz análises políticas, fala sobre arte, música e poesia. É possível ouvi-los neste link da rádio uruguaia Espectador:
http://www.espectador.com/1v4_historico.php?idZona=8&sts=1

Para conferir um estudo completo sobre Daniel Viglietti, confira a tese de José de Aguiar, do Depto. De História da UFRGS, sobre o artista uruguaio:
http://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/30597/000778805.pdf?sequence=1

E conferir também um concerto histórico: "Viglietti & Benedetti: A Dos Voces", disponível na íntegra no You Tube. Coloco aqui a 1a. parte, que, a partir dela, é possível achar as outras:


Por fim, além dessas canções antológicas, Viglietti escreve "Canción Para Mi America", em que defende a integração da América-Latina, realizada pelos povos oprimidos:

Aqui, Daniel em uma gravação histórica, canta com Izabel e Angel Parra, filhos de Violeta.

E aqui ficamos com os versos dessa linda música, que explicita a essência de toda música-política americana "La guitarra americana, peleando aprendió a cantar!":

Es el tiempo del cobre
Mestizo, grito y fusil
Si no se abren las puertas
El pueblo las ha de abrir
(...)
La copla no tiene dueño
Patrones no más mandar
La guitarra americana
Peleando aprendió a cantar